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A REVOLTA DOS BARISFEROS

A CONFERÊNCIA DA DISCÓRDIA

 

Em Outubro, teve lugar em Lisboa mais um Encontro Internacional de Arqueólogos. Esta conferência reunia as maiores figuras da Arqueologia mundial. Investigadores de todo o mundo encontravam-se neste sarau e revelavam as novas descobertas da ciência arqueológica.

Assim, nesse ano, a honra de acolher o evento coube ao Centro Cultural de Belém. Com a duração de três dias (Sexta, Sábado e Domingo), este XLV Encontro contaria com a participação de centena e meia de especialistas na matéria.

O colóquio não tinha marcação obrigatória. Tanto se podia realizar anualmente, como podia ser trimestral. Tudo dependia dos organizadores e de factos novos que o justificassem.

Normalmente, estas conferências não passavam de conversas entre especialistas da mesma área, trocando ideias sobre a matéria, ou partilhando a descoberta de um novo esqueleto de dinossauro ou uma cidade perdida. Havia já quem dissesse que as conferências se estavam a tornar maçadoras e pouco relevantes.

 

 

 

Quando o Professor Juan Pérez subiu ao palco e se dirigiu ao estrado onde iria falar, a expectativa da assistência aumentou.

Com um aspecto cansado, caminhar lento e rosto carregado, este arqueólogo peruano era um dos indivíduos mais controversos da sua área. Homem de quarenta e oito anos, vinte dos quais como professor universitário nos Estados Unidos, ele dividia o seu tempo entre a docência e a investigação. Já fizera expedições por diversas zonas do globo, procurando vestígios de civilizações desaparecidas.

Pérez investiu muito do seu tempo na investigação das culturas Inca e Maia, comandando grupos de arqueólogos pelo relevo montanhoso da América do Sul. Porém, a sua personalidade forte e o ar carismático faziam-no ser idolatrado por uns e odiado por outros.

Com o semblante tipicamente carregado, o Prof. Pérez colocou os óculos no rosto e fez sinal para que ligassem o projector. E no enorme pano atrás dele, apareceu a fotografia de um esqueleto.

— Caros colegas, caros curiosos, apresento-vos a mais recente descoberta arqueológica e, talvez, a mais controversa da história da humanidade.

Por toda a sala ecoou um suspiro pasmado da assistência, provocado na maior parte pelo público leigo. Já os especialistas mantiveram-se serenos, esperando o resto.

Pérez apoiou a mão esquerda na mesinha em frente a si e segurou as folhas com a direita, prosseguindo:

— Este esqueleto foi descoberto na região de Iucatão.

 

 

 

Iucatão é uma região a sudeste do México. Era um local muito procurado para investigação arqueológica e era considerada por muitos como o local onde teria caído o meteorito que supostamente extinguira os dinossauros.

Claro que Pérez não andava à procura de vestígios de dinossauros, até porque não era tema que lhe despertasse muito interesse, ele próprio dizia que investigações de dinossauros já havia que chegasse. Mais uma frase que o "queimou" entre alguns dos seus colegas.

Nestes últimos dois anos, Pérez e a sua equipa procuravam algo mais importante, algo que podia ser uma fantasia ou então a maior descoberta mundial de sempre.

Cerca de uma década antes, o Prof. Pérez estudava as ruínas de uma cidade Inca. Grande paixão desde sempre, a cultura Inca fascinava-o e fazia-o procurar incessantemente novos dados. E dando asas a essa fome de saber, Pérez investigava artefactos extraídos dos templos.

Num desses artefactos, Pérez descobriu um estranho relato. Um desenho revelava uma oval dourada por cima do templo principal da cidade. No topo do templo apareciam duas figuras distintas, a primeira erecta com forma de humano, mas com uma cabeça de lagarto, ou coisa parecida, segurando uma bola debaixo do braço e envergando vestes prateadas que pareciam saídas de um filme de ficção científica.

Apesar de surpreso, Pérez encarou a descoberta com naturalidade. Já ouvira falar de pinturas Maias, no México, que revelavam ovais douradas no céu. Porém, esse facto sempre foi encarado pela maior parte dos especialistas como referencias ao Sol ou meras crenças descabidas de sentido.

No entanto, Juan Pérez dava muito significado ao que tinha nas mãos. A caixa de madeira que desenterrara dos escombros do templo conservara diversos documentos demasiado importantes para serem encarados com leviandade.

Voltando à gravura, Pérez decidiu observá-la, desprendendo-se das crenças e dos conceitos pré-concebidos. Se aquele estranho ser vestia um fato prateado, então a bola debaixo do braço só podia ser o capacete. O ser vinha na oval que pairava sobre o templo, logo pressupõe-se que era um extraterrestre. Seria?

Continuando a observação, a gravura mostrava um ser humano ajoelhado em frente ao primeiro, que parecia um sacerdote típico das tribos incas, em clara postura de vénia para com uma divindade. E a mesma postura era tomada pela restante população em volta do templo.

Se a gravura já era surpreendente, o texto que a acompanhava não era menos. Após traduzir a mensagem, Pérez leu algo como: "Visita dos filhos do Sol, descendentes do grande lagarto."

Incompreensível. Pérez equacionou a possibilidade de, vendo-os chegar do céu, eles fossem descritos como "filhos do Sol". Porém, a designação de "descendentes do grande lagarto" deixava dúvidas. Descendestes de lagartos podia ficar a dever-se ao rosto de réptil, mas porquê o uso da palavra "grande"?

O Prof. Juan Pérez guardou religiosamente os documentos. Nas restantes investigações por outras cidades incas, jamais encontrou relatos semelhantes. Nunca revelou a descoberta, pois considerava necessário que houvesse mais dados importantes, antes de mostrar ao mundo tamanha descoberta. Ele sabia que não haveria de faltar gente a criar as mais absurdas teorias para desacreditar a gravura.

Cerca de oito anos mais tarde, Pérez deslocou-se com a sua equipa à região de Iucatão. Tivera a suspeita de que algo de estranho haveria por lá, após a observação de diversos manuscritos Maias que referiam muito essa região, mais precisamente a alguns quilómetros dos sinais da cratera atribuída à queda de um meteorito.

Numa investigação arqueológica nas ruínas de Chichen Itzá, cidade Maia da região de Iucatão, Pérez descobriu uma interessante referencia a um local designado "terra maldita" que ficava a poucos quilómetros dali. Conhecedor do local, ele rapidamente ligou a localização a uma escavação arqueológica que estava a ser feita no local.

Diversos paleontólogos desenterraram ossadas de dinossauros nesse local. Só que a falta de fundos para continuar e o pouco interesse pelas ossadas de animais já conhecidos, fizeram o projecto arqueológico parar. Porém, não era isso que o intrigava. O estranho era o manuscrito referir o local, sabendo-se que seria impossível aos Maias terem conhecimento do local.

O mais intrigante era o texto: "Terra maldita, solo proibido onde repousam o grande lagarto e os seus filhos. Jamais poderá ser pisada. Quem desobedecer morrerá pelo poder da grande pedra do céu."

Juan Pérez questionou-se. Mais uma referência ao grande lagarto. Se no local só havia ossos de dinossauros, ele concluiu que grande lagarto era a designação para dinossauro. Nesse momento, sentiu um calafrio na espinha.

— Meu Deus, que tenho eu nas mãos? — interrogou, olhando para o manuscrito. — Que estarei eu a descobrir?

Pérez sabia que na época dos Maias ainda não se tinha conhecimento do fenómeno "dinossauro", pois o mesmo só fora concebido muitos séculos mais tarde. Também não poderiam tê-los visto, pois estes extinguiram-se muitos milhões de anos antes. Então, como saberiam eles da existência do local?

Foi nesse instante que a sua mente reviu a gravura encontrada, anos antes, na cidade Inca.

— Filhos do Sol, descendentes do grande lagarto. — disse ele em voz baixa.

Se o ser extraterrestre era descendente do grande lagarto, logo, era filho dos... dinossauros? Não pode ser, pensava ele. A ser verdade, estava perante uma descoberta que punha em causa toda a história do Mundo.

Voltou a ler o manuscrito Maia e releu a parte "... onde repousam o grande lagarto e os seus filhos."

Falando para consigo, Pérez disse:

— Das duas, uma: Ou os filhos são as crias, ou há ossadas destes seres naquele lugar.

Espavorido, o Prof. Pérez saiu do interior daquele pequeno templo e chamou a sua equipa de arqueólogos que trabalhavam no exterior. Reuniu todos, entraram nos jipes e seguiram para o local das escavações.

 

 

 

Todos olhavam para um buraco enorme, deixado ao abandono após o término do projecto encetado no local. Pérez foi o primeiro a descer, sendo seguido pelos discípulos.

Já no fundo, entre a rocha iluminada pela luz do Sol, um dos elementos perguntou:

— Professor, o que procuramos?

— Quando encontrar, digo-vos. — respondeu, fazendo uma busca com o olhar.

Enquanto a meia dúzia de jovens arqueólogos discutia entre si o porquê daquela investigação, o Prof. Pérez procurava algo que achava impossível de encontrar.

Minutos depois, a sua atenção despertou para a ponta de um osso semi-descoberto na areia fina, entre os rochedos. Chamou os seus acompanhantes e todos começaram a escavar.

Desenterrado o osso, Pérez analisou-o, perante o olhar expectante dos outros. Parecia um osso do corpo humano, mais precisamente de uma perna. Porém, apresentava um desgaste semelhante às ossadas dos dinossauros que ainda se conservavam no local.

— Gonzalez! — chamou o professor. — Leva este osso para o jipe e conserva-o o melhor possível. Vamos levá-lo para o laboratório. Depois, telefona para o nosso advogado para que ele trate dos pormenores legais para podermos reiniciar as escavações, aqui.

— Vamos extrair as ossadas dos dinossauros? — indagou o outro.

— Não! — respondeu ele. — Vamos desenterrar algo muito mais importante.

Uma semana mais tarde, o local estava envolvido em grande actividade. Três equipas de escavações lideradas pelo Prof. Juan Pérez buscavam esqueletos semelhantes aos dos humanos. Era uma procura estranha, para muitos, mas Pérez sabia o que procurava. Chegou a haver boatos de que ele procurava restos mortais de chacinas feitas sobre os zapatistas, pelo governo mexicano, um facto que levou a alguns problemas com as autoridades locais. Mas com maior ou menor lentidão, a busca foi prosseguindo.

Ano e meio depois de começarem, as escavações terminaram, pois já não havia mais a procurar e já tinham encontrado o que procuravam. Para além de diversos esqueletos de dinossauros, foram encontradas ossadas parecidas com as dos seres humanos contemporâneos, mas com pequenas diferenças. Ao todo, contavam-se cinquenta e dois esqueletos de uma estranha espécie, nunca vista anteriormente. O tronco e os membros superiores e inferiores eram semelhantes aos dos humanos. Porém, o crânio tinha a forma da cabeça de lagarto, as mãos tinham três dedos para a frente e um para trás, supondo-se que ostentavam garras afiadas, como as aves, e os pés eram idênticos. O esqueleto era muito parecido à figura extraterrestre desenhada na gravura Inca.

Juan Pérez julgou tratar-se de um cemitério dessas estranhas criaturas. Só que à profundidade a que estavam e tão perto dos dinossauros, tornou essa teoria inválida. A questão permanecia: Como foram ali parar os ossos de extraterrestres?

A resposta chegou com o resultado dos exames feitos às ossadas descobertas. Tinham milhões de anos e revelavam que eram de uma espécie contemporânea dos dinossauros.

Foi esta explicação que o Professor Juan Pérez partilhou com os seus colegas no Centro Cultural de Belém.

Os rostos de todos os que assistiam era de perplexidade. Ninguém queria acreditar em semelhante descoberta.

— Pelas investigações que fizemos, podemos concluir que a figura da gravura Inca é um descendente desta espécie. — continuou Pérez, apontando para o pano gigante onde se projectava uma cópia da gravura. — O esqueleto tem ligeiras alterações em relação à figura. Mas não restam dúvidas de que se trata da mesma espécie.

— Pura fantasia. — gritou um indivíduo no meio da assistência.

Era um arqueólogo britânico de espírito conservador. A sua frase foi aceite por outros dos presentes que acenaram afirmativamente com a cabeça.

Um outro especialista levantou-se e perguntou:

— Professor, quais são as conclusões a que chegou com as suas descobertas?

Pérez segurou novamente os seus apontamentos e relatou:

— As investigações indicam que se trata de uma espécie de réptil, descendente da época dos dinossauros e que terá habitado a Terra, antes da queda do meteorito há milhões de anos.

— E sobreviveram? — interrogou o mesmo.

— A princípio pensámos que não. — respondeu Pérez. — Mas, quando vimos as referencias feitas nos manuscritos Incas e Maias, concluímos que sim.

— Como? — perguntou um outro.

— Bom... — prosseguiu o professor. — Só vejo uma hipótese. Estamos perante uma civilização que, na época, era mais evoluída do que nós, hoje.

— Absurdo! — interrompeu o britânico.

— Cale-se! — ordenou um mexicano, noutra ponta. — Deixe o homem continuar.

O Prof. Pérez continuou:

— Possivelmente, eles teriam uma tecnologia que lhes permitiu antever a chegada do meteorito. E a mesma tecnologia possibilitou-lhes a fuga do planeta, sem deixarem qualquer rasto da sua existência.

— Você não devia ser arqueólogo! Devia ser realizador de cinema! — voltou a interromper o britânico.

Pérez ignorou os comentários e seguiu:

— Cremos que as ossadas encontradas são de elementos que não conseguiram escapar a tempo e foram apanhados pelo impacto do meteorito, ou pelas consequências do mesmo.

— Mas se eram tão evoluídos, não podiam ter evitado o impacto do meteorito? — indagou o mexicano. — Até nós o poderíamos fazer, hoje.

— Acha que sim? — interrogou Pérez. — Não estará a ser levado pela ficção cinematográfica?

O arqueólogo mexicano não respondeu.

— Mesmo que pudessem, — continuou ele. — ou não o quiseram fazer, ou não o conseguiram. O que é certo é que eles sobreviveram.

— Desculpe, Prof. Pérez. — interpelou um jovem. — Se isso é verdade, estamos perante a civilização mais antiga e evoluída que alguma vez existiu no planeta Terra.

— Nem mais. — atalhou Pérez.

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