A CAMINHO DO TEU NOME

Já alguma vez olharam para o passado e recordaram aquele momento na vossa vida em que lhe podiam ter dado qualquer destino? Talvez não um momento exacto, mas uma época, uma idade em que o futuro era um caminho que poderia seguir qualquer direcção. Olharem para trás e pensarem que nesse tempo, ainda era possível ter feito isto ou aquilo? Poder decidir sem pensar nas responsabilidades que o avançar dos anos trazem, na falta de coragem para arriscar, nas amarras que já não temos força para soltar.

Eu tivera esse momento. Tivera essa época, apesar de não saber muito bem quando e o que mudaria ou se mudaria mesmo alguma coisa.

 

As ondas do mar batiam com ruído no manto de areia que se estendia ao longo da costa. O céu trouxera um aglomerado de nuvens matinais que transformaram o ambiente numa penumbra cinzenta, escondendo ao longe o horizonte numa espécie de nevoeiro.

O ambiente estava como a minha alma, turva e triste.

Sempre gostara de ir até ao areal observar o mar, sem tempo para permanecer ou partir. E preferia fazê-lo em épocas como aquela, em pleno Outono, quando não se vê quase ninguém por ali.

Estava triste, muito triste, pois perdera uma pessoa muito importante e sabia que a minha vida mudaria dali para a frente, pois nada voltaria ser como antes. O maldito cancro levara-me aquele que fora o meu melhor amigo em toda a minha existência, o meu tio, o homem que me criara.

Naquele dia, tinha eu pouco mais de vinte e dois anos, sentia o vazio deixado pela sua ausência. O meu tio era irmão da minha avó materna, a qual nunca cheguei a conhecer, pois falecera ao dar à luz a minha mãe. Foram o meu tio e a minha tia quem educou a minha mãe, mas sentiam que tinham falhado por completo.

Pouco me lembro da minha mãe, apenas as fotos e os relatos que os meus tios partilhavam comigo. Tal como haviam feito com ela, também tiveram que tomar a seu cargo a minha educação, se bem que por razões diferentes.

A minha mãe não tinha juízo, acho que não se pode descrever de outra forma. Na década de setenta do século XX, em plena liberdade pós-revolucionária em Portugal, a sua juventude levou-a a todo o tipo de maluquice que envolvia drogas e sexo. À conta disso, engravidou duas vezes e duas vezes arranjou forma de fazer um aborto. Fê-los contra a vontade dos meus tios que, mesmo condenando-a por aquela vida, estavam dispostos a apoiá-la na maternidade.

Passou uns maus bocados devido aos abortos. Na altura, a interrupção voluntária de uma gravidez era crime e só se conseguia fazer ilegalmente em lugares escondidos por pessoas estranhas que ganhavam bom dinheiro com isso, indiferentes ao que pudesse acontecer às mulheres que as procuravam.

Quando a minha mãe engravidou uma terceira vez, essa foi a gota de água para o meus tios. Estavam fartos. Por isso, o meu tio disse-lhe que se ela fizesse um novo aborto a expulsava de casa. Porém, se ela tivesse a criança, eles iriam ajudar a criá-la e a educá-la. Esta é a minha primeira dívida de gratidão para com eles.

Não sei quem é o meu pai. Nem pretendo algum dia vir a saber. E com sinceridade concluo que é bem possível que nem a minha mãe soubesse.

Seja como for, eu cheguei então a este mundo num Domingo ao início da noite de um dos últimos dias de Verão daquele ano.

A razão pela qual tenho poucas ou nenhumas recordações da minha mãe foi porque ela nunca ultrapassou a depressão causada pela gravidez e parto. Sentia que tudo aquilo era uma prisão, ser mãe era uma prisão. Já não podia fazer a vida desvairada habitual e vivia ressacada com a falta das drogas, uma vez que os meus tios controlavam-na de forma a que ela não tivesse acesso a elas. E por fim, a falta de sexo, o desinteresse que percebia nos homens por não quererem nada com uma mulher que tinha de apêndice um bebé nos braços.

Tal como decidira por duas vezes optar pela interrupção voluntária da gravidez, antes do meu primeiro aniversário, optou pela interrupção voluntária da própria vida. E teve sucesso.

Não vos vou dizer que os meus tios foram os pais que nunca tive. Não vos vou dizer isso porque o meu conceito de pai e mãe não fariam justiça a tudo o que o meu tio e a minha tia foram para mim ao longo da vida.

Se não fora fácil educar a minha mãe, ter um bebé para criar quando se é quase sexagenário torna-se ainda mais complicado.

Seja como for, eles deram tudo por mim e tornaram-me na pessoa que sou. Também tive as minhas complicações, dei-lhes muitas dores de cabeça, mas soube absorver os seus conceitos, os seus princípios e sei que ambos se orgulhavam de mim.

As nossas vidas levaram um novo rombo quando eu tinha catorze anos.

A minha tia tinha um histórico de problemas de coração. Chegou uma altura em que se tornou necessária uma intervenção cirúrgica. Segundo os médicos, apesar de ser uma operação delicada, não seria complicada e iria correr tudo bem. Acho que foi a partir desta data que deixei de acreditar no optimismo dos médicos.

A operação correu normalmente, mas o pós-operatório trouxe complicações. E a minha tia partiu...

O meu tio estava inconsolável por perder alguém com quem partilhara a vida ao longo de quase cinquenta anos. Foi ele quem me deu a notícia, numa postura segura, mas sem esconder que já chorara e que isso nada tinha de mal. Foi nos seus braços que eu próprio chorei a perda.

Incansável, jamais ponderou a hipótese de deixar de ser viúvo. Tomou para si a totalidade do encargo que eu representava, sempre com um sorriso nos lábios, pronto a suprir as minhas necessidades, atento a que eu não saísse da linha, intransigente a condenar-me cada vez que eu não me portava bem.

O meu tio foi tio, pai, avô, irmão... Foi toda a minha família. E acima de tudo, foi Amigo.

Naquela manhã, eu estava consciente que nada voltaria a ser como antes. O meu tio falecera vítima de um cancro que, apesar de operável com sucesso, os seus oitenta anos não conseguiram resistir. Estava sozinho, solitário, órfão...

O vento soprou um pouco mais forte. O mar embatia na costa arenosa, avançando e recuando. Percebi que as lágrimas me escorriam pela face. Não me importava que alguém me pudesse ver a chorar. O meu tio ensinara-me que chorar não é sinal de fraqueza, é demonstração de que temos sentimentos.

Iria regressar a casa, ao apartamento arrendado que fora o meu lar desde que nascera e o dos meus tios na maior parte da sua vida. Iria regressar a um espaço tremendamente vazio, um espaço onde somente eu passaria a viver. Já não haveria as manhãs a encontrar o meu tio na cozinha a comer as suas papas de pão e leite, não haveria uma face para dar um beijo, um sorriso a informar que o dia iria correr bem. Já não haveria a quem dizer "até logo" ao sair ou "olá" ao entrar em casa. Já não haveria conversas na sala a ver televisão, discussões saudáveis sobre futebol, relatos de mais um dia de acontecimentos supérfluos. Já não haveria nada, nem nada, nem mais nada. Nada de nada.

Duas gaivotas passaram a voar e foram aterrar no areal, a cerca de vinte metros de mim. Observavam-me como se não existisse. Naquelas ideias ridículas que usamos para tentar colmatar a perda, imaginei-as como sendo a reencarnação dos meus tios que ali andavam a voar à minha volta, continuando a velar por mim. Porém, como se adivinhassem o meu pensamento, as gaivotas indignaram-se e levantaram voo para longe.

Não sei quanto tempo permaneci ali. Sei que não se via vivalma, pois o clima não convidava a passeios na praia. Eu apenas me encontrava ali porque era um local que sempre me apaziguara nos momentos mais infelizes. Acho que aprendi isso com o meu tio, pois era ali que me levava a passear depois de perder a minha tia, era ali que ele gostava que ficássemos a olhar o mar em silêncio. Lembro-me que certa vez me dissera "se um dia encontrares uma mulher que te ame como a tua tia me amou, vive cada segundo com ela como se fosse o último".

Para ser sincero, nunca pensei que pudesse encontrar alguém assim. O amor que os meus tios partilhavam era de tal forma forte que bastava ver como se olhavam para perceber o quanto se amavam. Mesmo casados várias décadas, sentia-se a paixão entre eles. Porém, se eu encontrasse alguém com quem partilhasse um décimo dessa paixão, já seria imensamente feliz.

Levantei-me da areia e sacudi as calças. Caminhei lentamente, regressando à estrada para regressar a casa.

O autocarro ia quase vazio. Era um Sábado invernoso, pelo que aquela rota não tinha muitos passageiros, quase ninguém se interessaria em ir para a praia, logo não havia gente a regressar dela. Aquele trajecto ligava a linha costeira de praias e a cidade de Almada, onde eu sempre vivera.

A paragem de autocarro ficava a cerca de trezentos metros da minha casa, um apartamento pequeno que os meus tios haviam arrendado desde que se casaram. Graças à sua antiguidade e ao facto de eu também ter vivido ali desde que nascera, tinha direito a ser o novo arrendatário com uma ligeira diferença de valor da renda. Como já trabalhava, essa despesa não trazia grande problema.

Enquanto caminhava pelo passeio, fui surpreendido por um gato. Já era adulto e tinha um pelo muito bonito tricolor em tons de amarelo, preto e cinza. Calculei que na minha passada seguinte, como qualquer gato de rua, ele desatasse a correr para longe. Porém, ao invés, ele aproximou-se mim.

Fingi que não o vi e prossegui o meu caminho. E ele gatinhou a meu lado, como se dissesse "espera aí, quero ir contigo". Notei que não deveria ser um gato de rua. Parecia bem tratado, apesar de magro. E o facto de se aproximar e quase pedir afecto, levou-me a crer que talvez tivesse sido abandonado por uma qualquer besta sem coração.

— Vai-te lá embora. Não tenho nada para ti. — disse-lhe ao alcançar a porta do meu prédio.

O gato ficou a olhar-me como se esperasse algo de mim.

Eu abri a porta e entrei, tendo o cuidado de não o deixar entrar para a escada. Fechei a porta de vidro e virei costas. Contudo, antes de alcançar o primeiro degrau, voltei a olhar para a porta. O gato sentara-se e ficara a olhar para mim. Tentei subir os degraus... mas não consegui.

Voltei atrás e abri a porta.

— Que se passa? Também ficaste sozinho?

O gato permaneceu sentado com os olhos postos em mim.

— Não sou grande companhia. No teu lugar ia procurar uma companhia melhor.

Ele limitava-se a olhar.

Eu abri mais a porta e dei espaço para que ele entrasse, dizendo:

— Anda. Queres vir comigo?

O gato levantou-se e gatinhou para dentro do prédio. Passou por mim, contornou-me e veio esfregar-se nas minhas pernas.

— Não achas um pouco cedo para demonstrações de carinho? — inquiri. — Mal nos conhecemos.

Subimos as escadas juntos, lado a lado, até à porta do apartamento. Mal a abri, ele entrou e começou a investigar tudo, todas as divisões, todos os cantos.

— Vê lá, não estragues nada.

Fui até à cozinha e preparei-lhe uma tigela de leite. Não tinha mais nada que lhe pudesse dar.

Quando viu a tigela, confirmei que estava faminto.

Enquanto ele se saciava, pensei como lhe haveria de chamar.

— Olha lá, como é que te chamas?

Ele ignorou-me, continuando a beber o leite.

— Deves ter nome. — continuei. — Mas, como te vou chamar? Não gostava que agora me começassem a chamar outro nome que não fosse Daniel. Por isso, como é que te chamas?

O gato olhou para mim e miou.

— Não. Não te vou chamar Miau.

De súbito, veio-me à cabeça aquela fantasia que tivera ao ver as gaivotas, que elas pudessem ser a reencarnação dos meus tios. Seria aquele gato a reencarnação do meu tio? Eu sei que a ideia era absurda. Porém, eu estava fragilizado pela perda e capaz de acreditar em absurdos.

— Não tenho como saber o teu nome. Mas o que eu mais chamava aqui em casa antes... Antes do que aconteceu. O que eu mais chamava era "tio". Por isso, vou chamar-te Tio.

O gato voltou a miar.

— Não é negociável. Não te vou chamar Miau. Vou chamar-te Tio.

Quando se saciou, Tio gatinhou pela cozinha e aninhou-se a um canto, entre a parede e o móvel. Ficou a observar-me por alguns momentos, até começar a fechar os olhos. Pareceu-me que se sentia seguro e deixou-se repousar. Não faço a menor ideia do que ele deveria ter passado na rua, mas sendo um gato habituado a estar em casa, deve ter sido assustador.

Apesar de não falarmos a mesma língua, disse-lhe que ia sair para comprar algumas coisas para ele. Limitei a movimentação do gato pela casa, fechando a porta da cozinha, e saí do apartamento.

Nunca tivera um gato, aliás nunca tivera qualquer animal de estimação. Por isso, não tinha nada em casa para o Tio. Também não tinha muito dinheiro para gastar com aquilo.

Não havia lojas de animais por perto, mas a alguns quarteirões existia um hipermercado onde fazíamos compras periodicamente. Pela primeira vez, desde que lá ia, passei na secção para animais de estimação com atenção nas prateleiras. Comprei ração de gato, uma caixa e a areia para colocar nela.

Quando estava a regressar a casa, reparei numa clínica veterinária. Sim, talvez fosse melhor levar o Tio até lá para verificar se ele estava bem.

O gato adaptou-se ao novo espaço. Mais uma prova de que deveria ser um animal caseiro foi o facto de não ter feito nenhum xixi ou cocó enquanto eu fora às compras. Porém, mal instalei a caixa de areia na casa de banho e o chamei, ele apressou-se a aliviar-se. Escolhi uma tigela de plástico e coloquei-a no chão da cozinha, ao lado da que tivera o leite. Enchi-a com ração. No lugar onde ele se deitara, acomodei uma manta velha para lhe servir de cama.

O apartamento não era muito grande, uma cozinha, casa de banho, uma sala e dois quartos. Apenas o quarto do meu tio permanecia com a porta fechada, pois ainda era doloroso para mim lá entrar. Por isso, Tio circulava livremente por todo o lado, normalmente procurando os mesmos espaços em que eu estava.

Nessa noite, Tio ficou a miar quando não o deixei entrar no quarto. Não me agradava a ideia de ter um gato no quarto enquanto dormia. Contudo, o gato ficou a miar, não muito alto, mas suficientemente sofrido para que eu não conseguisse dormir. Levantei-me da cama e abri a porta.

— Chato! Podes entrar, mas não vais para a cama.

Mais valia ter-lhe dito para saltar para o colchão, pois ele entrou, saltou para a cama e aninhou-se ao fundo.

 

Naquela altura, eu tinha um horário laboral pouco comum, entrava ao serviço às três da tarde e saía à meia-noite. Por isso, as manhãs estavam sempre disponíveis para tratar de qualquer assunto que surgisse. E no primeiro dia útil após a chegada do meu convidado felino, aproveitei essa mesma manhã para o levar ao veterinário.

Como tinha receio do volume dos custos, optei por visitar a clínica primeiro, informar-me sobre os preços e disponibilidade para o gato ser observado. Os serviços funcionavam numa espécie de loja, ao nível do rés-do-chão do edifício, com o espaço bem aproveitado onde uma recepção e uma sala de espera eram os únicos espaços visíveis a quem entrava. Fui recebido por uma jovem simpática que me pôs a par do preço da consulta e dos eventuais adicionais dependendo das necessidades do bichano. Claro que quanto mais ela falava, mais eu me assustava, pensando se tinha um gato ou uma acompanhante de luxo. No fim, inquiriu-me se tinha como transportar o gato, se tinha uma caixa transportadora. Não tinha pensado nisso, nem tinha a caixa. Bastante solícita, emprestou-me uma caixa, uma espécie de jaula portátil, para que eu transportasse confortavelmente o meu novo amigo.

Cerca de uma hora depois, estava a ser recebido pelo médico veterinário no seu gabinete, um homem que aparentava ter uns quarenta anos e com apetência natural para lidar com animais.

— Está com sorte! — exclamou. — Ela está esterilizada.

— Ela?

— Sim, é uma gata.

— Pensei que fosse um gato.

— Não. Posso garantir-lhe que é uma gata. — Afastou o pelo da barriga. — E como pode ver aqui tem a cicatriz da cirurgia de esterilização.

Bom, pelo menos não teria essa despesa de a esterilizar, conforme ele me havia recomendado antes de a observar. Porém, ainda estava um pouco estupefacto por o Tio afinal ser a Tio.

Claro que não lhe mudei o nome. Ou melhor, não mudei a forma como a chamava, já que o nome deveria ser um outro que eu jamais saberia, a menos que encontrasse os seus donos. E em relação a isso, deixei indicações para que, se alguém aparecesse a perguntar pela gata, poderiam dar o meu contacto.

Não vou fazer suspense sobre esta parte. Nunca surgiu ninguém a procurar a minha Tio. E ainda bem, pois a gata tornou-se peça fundamental no meu dia-a-dia.

 

A Tio dormia, como costume, no sofá, naquela manhã chuvosa. Sem qualquer compromisso que me obrigasse a sair, fiquei por casa a olhar para nenhures, vendo as gotas a embater no vidro.

Aqueles momentos eram veneno para a minha alma, pois rapidamente me deixava cair em recordações e a saudade atingia-me como uma bala perdida à qual eu fugia diariamente.

Nunca ligava a televisão àquela hora, e nem para me distrair o faria. Optei por sair da sala e ir ao meu quarto. Fui em busca de nada, esperançado que algo me afastasse das memórias. Olhei para a cama, para a janela, para as prateleiras com os livros que nunca gostei de ler... O som abafado das patas felinas avisaram-me que a gata acordara e viera no meu encalço, era a minha sombra em casa.

Olhei para o velhinho computador que os meus tios me haviam comprado pouco antes de a minha tia partir.

Na adolescência, eu tinha duas grande paixões, a informática e a fotografia, sendo que a segunda surgira primeiro e me entusiasmava mais que os computadores.

O meu tio tinha uma máquina fotográfica, uma Canon AE1, que lhe fora oferecida por um amigo, antes de eu nascer, que lha trouxera dos Estados Unidos. Os meus tios tinham alguns passatempos, mas a fotografia era-lhes completamente indiferente. Por isso, no meu décimo aniversário, quando me acharam com capacidade para mexer naquele aparelho, ofereceram-ma com o meu compromisso que a estimaria. Eles não tinham noção do poder da máquina que ali tinham, e muito menos eu na altura. A minha maior dificuldade era colocar o rolo no aparelho, o processo de puxar a ponta do rolo, prender no local especifico e enrolar ligeiramente até esticar e ficar pronta a fotografar. Foi o senhor da loja de fotografia do centro comercial em Almada que me explicou. Perante a incapacidade de me esclarecer, o meu tio levou-me lá com a máquina. O homem espantara-se por ver um miúdo tão novo com um aparelho daqueles, porém, teve a paciência de me explicar o funcionamento de forma geral. Eu aprendi depressa e à conta disso, muitas das fotos que existiam lá em casa tinham sido captadas por mim.

A informática foi diferente. Em miúdo, computadores para mim eram jogos. E no prédio onde vivíamos, habitava um rapaz alguns anos mais velho que eu, o qual tinha um famoso Spectrum 48k com muitos jogos.

Apesar de ele me convidar muitas vezes para jogarmos, eu queria ter o meu próprio computador. Penitencio-me pelas muitas vezes em que aborreci os meus tios com pedidos para que me comprassem um computador igual, ao qual eles respondiam sempre negativamente e eu amuava.

Se pudessem, eles dar-me-iam o mundo. Porém, a vida não era fácil e só um controlo orçamental muito apertado evitava que nos faltassem os bens essenciais.

Dei dois passos pelo quarto até ficar junto à mesa do computador.

Aquele fora um presente do meu tio, comprado a prestações algum tempo após o falecimento da minha tia. Talvez o tivesse feito para me compensar pela perda, não como se um computador pudesse substituí-la, mas para me afastar da mágoa. Claro que, na altura, não era aquilo que eu queria. Para um puto de quase quinze anos, o computador era para jogar e aquilo não era um Spectrum...

Contudo, o meu tio fora bem claro na sua decisão, se eu queria um computador teria de ter mais utilidade que um mero aparelho de jogos. E, claro, mais uma vez ele tinha razão.

A escolha foi feita com base naquilo que o homem da loja nos vendeu, o conceito de um aparelho que me pudesse servir de apoio aos trabalhos da escola.

A Tio miou.

— Que queres?

Ela voltou a miar e saltou para cima da cama, aninhando-se nas almofadas.

O computador, tal como a fotografia, acabaram por vir a ter um impacto decisivo na minha vida.

Resisti à tentação de abrir algum dos álbuns que tinha junto dos livros que nunca li. A minha tia adorava ler e sempre tentara incutir-me esse gosto, oferecendo-me alguns livros. Fora das poucas coisas da minha educação em que não tivera sucesso.

— Sabes o que é que a minha tia me dizia? — disse em voz alta para a gata que me observava bem desperta. — Que a vida não é uma história, é um conjunto de contos onde somos personagem, contos que juntamos ao longo da vida.

Tio miou em resposta.

Sorri. Se assim é, estes são alguns dos contos da minha vida...

 

 

CONTO I

O teu nome é Tânia.

E queria estar ao teu lado.

Eu era seguramente o rapaz mais desinteressante da escola. Tinha dezassete anos e estava no 11º ano. Nunca fora popular, pelo contrário, sempre fora o elo mais fraco nas turmas por onde passara, o tipo com quem todos gozam, o alvo das humilhações. Não tinha amigos e a minha única companhia era a solidão. Nunca gostei da escola e tinha vergonha que os meus tios fossem lá para falar com os professores nas reuniões de encarregados de educação. Os meus colegas tinham pais jovens ou relativamente jovens. Eu tinha um casal de tios com aspecto de avós. Sim, era injusto e estúpido da minha parte sentir vergonha de duas pessoas que me amavam incondicionalmente. Mas por alguma razão a adolescência é dos momentos mais parvos e absurdos da nossa vida.

As directoras das minhas turmas diziam sempre o mesmo sobre mim, sem nada a assinalar no comportamento, apenas muito tímido e fechado, pouco social, algo desatento e pouco interessado na escola.

Houve um momento, um curto momento, quando eu estava no 8º ano, após o falecimento da minha tia, em que pareceu existir uma trégua por parte dos "engraçadinhos" da turma. No entanto, tal como referi, fora uma trégua curta.

Quando penso em mim naqueles dezassete anos, gostaria de ter uma máquina do tempo que me permitisse viajar até essa época para contar a mim próprio que a vida tinha mais soluções e problemas que aquela vida escolar.

Porque é que estou a pegar naquela turma neste conto? Talvez porque tenha sido a mais marcante do meu calvário de estudante.

 

Eu vinha de um transição de ano escolar muito complicada com uma pauta de notas que me permitiu avançar mesmo no limite. Estivera quase a ficar retido no mesmo ano pela segunda vez.

Contudo, no início desse ano lectivo, soube que na minha escola secundária, uma outra turma do 11º ano, também de Humanidades, iria ter a disciplina de Informática. Bom, na época tinha um nome mais complexo que Informática, mas resumindo era isso. Como não morria de amores pela minha turma, tal como nunca morri de amores por nenhuma das anteriores desde a 1ª classe, pedi ao meu tio que concordasse com a transferência. O processo resolveu-se a tempo de eu integrar a nova turma antes do início das aulas.

A manhã apresentava-se bonita com um Sol brilhante de final de Verão. Caminhei para a escola envolto na fraca esperança que aquele ano escolar fosse diferente dos anteriores. Vestia uma t-shirt larga amarela, calças de ganga azul que pareciam ser dois números acima da minha medida e um blusão do mesmo material muito gasto. Nos pés, os velhinhos All-Stars pretos com aspecto de precisarem de reforma. Como já referi, eu era a imagem mais desinteressante que poderia existir de um rapaz de dezassete anos.

A minha roupa não era uma escolha minha. Apesar de não passarmos fome, eu e o meu tio vivíamos com muitas limitações. E comprar roupa, só a que fosse mesmo necessária. Muito do que eu vestia era trazido por uma amiga da minha falecida tia, a qual se mantinha como governanta numa casa de família muito rica. Eles deitavam fora roupa quase nova e a senhora trazia tudo o que podia para nós. Por isso, eu ir a uma loja comprar algo que gostasse estava fora de questão.

O acaso fez com que a primeira aula do primeiro dia de apresentação fosse Informática. Entrei na escola carregando aquela sensação de que todos olhavam para mim e comentavam o meu aspecto ou faziam comentários depreciativos acerca de mim. Reencontrava rostos conhecidos, muitos que preferia esquecer, gente popular, rapazes que eram tudo o que eu desejava ser e raparigas que eu sonhava namorar.

Enquanto me dirigia para a sala marcada no horário, ecoou o toque de entrada. Constatei que em breve iria conhecer o novo antro de malvados onde teria de permanecer diariamente ao longo dos seguintes oito a nove meses.

Se já era complicado para mim inserir-me numa turma onde a maior parte dos elementos se via pela primeira vez naquele dia, entrar numa onde a quase totalidade já se conhecia do ano anterior era ainda pior. Naquela época, as novas turmas formavam-se no 1º, 5º, 7º, 9º e 10º ano. No 11º ano, a turma já se conhecia.

Eu não era o único elemento novo. Mais tarde vim a reparar que havia outro rapaz que era novo na turma e na escola. Porém, ao contrário de mim, era tão extrovertido que rapidamente se integrou.

Os olhares curiosos alvejaram-me. Quem é aquele tipo novo? Quem é o gordo? Quem é o marreco? Se estas perguntas existiram, eu não as ouvi, eram fruto da minha imaginação que sofria por antecipação. Era o tipo novo, não era gordo, mas a roupa dava essa ideia, e tinha tendência a curvar-me para a frente, resquícios do uso de mochila pesada no tempo do Ciclo Preparatório.

Naqueles tempos, já não usava mochila, limitando-me a carregar um caderno formato A5 pautado e os manuais das disciplinas que tivesse nos respectivos dias. Era suposto passar a limpo em casa tudo o que escrevesse no caderno, só que nunca o fiz.

A sala de Informática tinha as mesas dispostas em U e com vários computadores. Como deverão ter adivinhado, o número de aparelhos era inferior ao dos alunos. Estranho? Portugal, década de 90, o computador ainda é um bicho estranho.

Os alunos espalharam-se pelas mesas, agrupando-se em associações de amizade que viam os seus contratos renovados para a nova época escolar. Meio perdido, sentei-me na primeira cadeira, ficando logo na ponta do U mais próxima da porta.

Naquela época, não era comum que um adolescente tivesse computador em casa, porém já muitos miúdos e miúdas os tinham e por vezes já se ouvia alguns a falar em jogos de disquete (novidade relativamente aos jogos do Spectrum que vinham em cassetes iguais às de música). Curiosamente, aquela turma agrupou na sua quase totalidade alunos que nunca tiveram computador.

Não me recordo de todos o colegas que tive naquele ano, naquela turma. Houve personagens que se desvaneceram da minha memória da mesma forma que outros se gravaram nela para todo o sempre. O puto novo que viera doutra escola, não me recordo do nome. Só perdurou na lembrança por esse facto, ser novidade ali tal como eu.

Contudo, houve figuras inesquecíveis pelos melhores ou piores motivos.

Recordo-me da Maria Inês, a crónica delegada de todas as turmas por onde passava, uma rapariga de dezasseis anos com ares de maria-rapaz, muito carismática e de personalidade muito forte. Havia quem lhe adivinhasse um futuro na política, era assertiva e defensora intransigente dos colegas nas reuniões com os professores. Nunca soube mais nada dela após a escola. Calculo que tivesse sido advogada, pois estudava afincadamente para isso e sei que entrou em Direito na Universidade de Lisboa.

A turma chegou a produzir uma deputada, a Francisca, também com dezasseis anos. Não era uma rapariga deslumbrante, cabelos negros compridos, rosto sorridente para os amigos e arrogante para a restante Humanidade, bajuladora dos professores e segura da sua inteligência. Ignorava-me a maior parte do tempo e amesquinhava-me no que sobrava. Era uma das melhores alunas da turma, sempre com excelentes notas. Participativa nas aulas, principalmente em Português e Filosofia, nunca deu sinais de vir a ter uma carreira na política. Tal como a Maria Inês, o seu objectivo era a advocacia. Mas, a Francisca de ambições políticas será um outro conto...

Em termos de notas, Alfredo rivalizava com ela. Magrinho e da minha idade, autêntico rato de biblioteca, usava óculos com lentes grossas e não era muito participativo nas aulas, preferindo deixar a sua marca para os momentos de receber testes e ouvirmos todos "muito bem, Alfredo, mais um 18". Também era um alvo fácil para os parvalhões da turma, só que ele demonstrava viver bem com isso e não lhe dava um décimo da importância que eu dava.

Por falar em parvalhões, destacavam-se o Tiago e o Dias. O primeiro era o quebra-corações das meninas. Alto, cabelo alourado pelo Sol e pela cera que usava na prancha de surf, desportista federado de trampolins, não demorou muito a fazer de mim o alvo de piadas e chacota. O seu melhor amigo, Dias, não era desportista nem surfista. Era o mais velho da turma com dezoito anos, perto dos dezanove, péssimo aluno, ar escanzelado... O que é que os unia? Os charros. Dias era uma espécie de dealer dentro da instituição. E quantas não foram as vezes em que ambos surgiam nas aulas completamente pedrados.

 

Para minha enorme surpresa, naquela primeira aula, percebi que fazia parte daquela turma uma rapariga chamada Tânia.

Tânia tinha a minha idade, uma rapariga de uma beleza deslumbrante, não era a mais bonita da sala, era a mais bonita da escola. Cabelo louro comprido, olhos verdes, rosto de boneca, corpo elegante. Usualmente vestia calças de ganga ou saias compridas que acompanhava com camisas ou camisolas dependendo do clima. Tudo nela era elegância, tudo pensado para ser atraente, cativante. Sim, ela era a quebra-corações dos rapazes. Se alguém naquela sala alguma vez poderia ter hipóteses com ela, seria o Tiago. E ele tentou. Só que ela não lhe deu qualquer abertura. E se tinha namorado, ele não estudava na nossa escola.

Obviamente que eu já a conhecia de vista de anos anteriores. E vê-la no mesmo espaço que eu trazia a esperança absurda que poderia ter alguma hipótese de me aproximar dela. Claro que ela ignorava a minha presença. O máximo que obtinha dela...